A curva do pato é o formato que a carga líquida do sistema elétrico assume quando a geração solar cresce: a demanda a ser atendida por outras fontes afunda ao meio-dia e sobe rápido no fim da tarde. No Brasil, esse desenho já aparece no Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) horário, que fica perto do piso durante o dia e dispara no início da noite, e isso pesa no custo de quem compra energia no Mercado Livre.

Imagine a rotina de um gestor de energia. Em meados de outubro, ele se deparou com um cenário extremo: o PLD saiu do piso de R$ 57,31/MWh durante a madrugada, e saltou para R$ 1.437/MWh no início da noite. Uma variação gigantesca no mesmo dia. O que isso muda na prática? Avaliar se o perfil horário de consumo da sua empresa a expõe a esses preços noturnos pode guiar decisões inteligentes: como deslocar cargas flexíveis para o dia e fazer as perguntas corretas ao seu gestor na recontratação.

Informações importantes:

  • A curva do pato descreve a carga líquida, não o consumo total, e o termo foi criado pelo operador da Califórnia (CAISO) em 2013.

  • No Brasil, o PLD é horário desde janeiro de 2021 e reflete o custo de operação de cada hora, calculado a partir do Custo Marginal de Operação (CMO) do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

  • Em 2026, o PLD varia entre o piso de R$ 57,31/MWh e o teto horário de R$ 1.611,04/MWh, de acordo com o Despacho ANEEL nº 3.850/2025.

  • O efeito do preço para a empresa depende do perfil horário de consumo e da forma como o contrato de energia distribui a modulação.

O que é a curva do pato e por que ela tem esse nome?

Para entender o fenômeno, é preciso diferenciar a carga total (o consumo integral de energia) da carga líquida (o que sobra do consumo total depois de descontar a geração solar e eólica). O termo foi criado na Califórnia (CAISO) em 2013 e popularizou-se pelo formato do gráfico.

Quando a energia solar atinge seu ápice de geração ao meio-dia, a carga líquida despenca e forma um vale profundo, desenhando o “corpo” do pato. No final da tarde, quando o sol se põe, a geração solar diminui simultaneamente ao aumento natural de demanda do Sistema Interligado Nacional (SIN), formando uma rampa íngreme de consumo, que se assemelha ao “pescoço” do pato.

O gráfico mostra a curva do pato em um dia do Sistema Interligado Nacional (SIN), de forma esquemática. A linha cinza é o consumo total; a linha verde é a carga líquida, ou seja, o consumo menos a geração solar. Entre 10h e 15h, a geração solar abre uma “barriga” na carga líquida e o PLD horário fica perto do piso. Entre 17h e 21h, o sol se põe, a demanda sobe rápido (o “pescoço”) e o PLD chega aos valores mais altos do dia.

A curva do pato já acontece no Brasil?

Sim, e já dita a dinâmica de operação do setor elétrico. Com o grande crescimento da capacidade instalada de energia solar, tanto em usinas de geração centralizada quanto em Micro e Minigeração Distribuída (MMGD), a carga líquida apresenta quedas acentuadas.

Veja como o SIN se comporta em um dia representativo em três momentos essenciais:

Período Carga Líquida Geração Solar CMO PLD
Madrugada Moderada Zero Zerado / Baixo Perto do piso
Meio-dia Vale acentuado Máxima Zerado Piso
Início da noite Rampa / Pico Zero Alto Teto / Valores altos

Como a curva do pato aparece no preço da energia?

No Brasil, o PLD horário implementado em 2021 reflete a realidade da curva do pato. O preço de cada hora está diretamente associado ao Custo Marginal de Operação (CMO).

Ao meio-dia, com ampla oferta de renováveis, usinas mais caras não precisam ser despachadas, e o PLD cai ao piso (em 2026 fixado em R$ 57,31/MWh). Contudo, na rampa do anoitecer, a escassez repentina de oferta renovável obriga o ONS a despachar hidrelétricas com limitação ou termelétricas caras para cobrir a demanda. Foi isso que puxou o PLD para R$ 1.437/MWh na ponta em 15 de outubro de 2026, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

Por que o ONS corta geração solar e eólica?

Quando há excesso de oferta de energia, limitação para escoar essa energia nas linhas de transmissão ou riscos à confiabilidade elétrica do sistema, o ONS precisa realizar o curtailment (corte de geração das usinas renováveis). Forma-se a situação onde sobra energia ao meio-dia, a ponto de não ser injetada, enquanto falta no começo da noite no mesmo sistema.

Como a curva do pato afeta o custo da sua empresa?

O efeito no seu custo depende majoritariamente de quanto do seu consumo ocorre na rampa noturna e de como o seu contrato trata a energia hora a hora.

Operações diurnas (escritórios e comércio) concentram seu uso nos momentos de PLD barato. Indústrias contínuas (24 horas) dividem melhor esse peso. Por outro lado, o consumo concentrado à noite (shoppings, iluminação, frio) recebe todo o choque dos preços elevados se houver exposição.

Na prática: o mesmo consumo, dois perfis de hora

Veja como duas empresas, consumindo os mesmos 500 MWh mensais, enfrentam realidades diferentes (simulação hipotética na parcela exposta ao PLD):

Empresa A: operação diurna Empresa B: operação concentrada à noite
Exemplo de perfil Escritórios, comércio, indústria em turno único Câmaras frias, shopping, turno noturno
Consumo entre 17h e 21h 10% do mês 35% do mês
Horário de maior consumo 10h a 16h, quando o PLD tende ao piso 18h a 22h, quando o PLD tende a subir
Efeito de uma sobra/falta Liquidada majoritariamente em horas baratas Liquidada majoritariamente em horas caras
Pergunta para o gestor O contrato aproveita o meu perfil diurno? Que parte da carga da noite pode ir para o meio-dia? A modulação me protege?

O perfil horário agora é um dado de compra que pode balizar o deslocamento de cargas se a operação permitir e o contrato repassar o benefício.

O que considerar na contratação e na recontratação?

Para garantir previsibilidade no Mercado Livre, leve as seguintes perguntas à sua próxima recontratação:

  • Como o contrato trata a modulação de energia (flat ou pela curva de carga)?

  • Qual é a flexibilidade oferecida?

  • Quanto do consumo da empresa cai de fato entre 17h e 21h?

  • É possível deslocar máquinas ou processos flexíveis para as horas de sol (meio-dia)?

  • O prazo do contrato conversa bem com a atual tendência do preço horário?

Compreender isso é fundamental, já que há grande diferença entre sazonalização do contrato e a modulação tratada aqui.

Se sua empresa está na modalidade varejista ou atacadista

  • Atacadista: A empresa é agente direto da CCEE. A diferença entre o volume contratado modulado e o consumo real é liquidada diretamente ao PLD daquela hora, impactando o fluxo financeiro de forma imediata.

  • Varejista: A operação na CCEE é de responsabilidade do comercializador varejista. Você sente o reflexo do preço horário por meio das condições negociadas no contrato com ele, como a estrutura de preços, limites de flexibilidade e a modulação estabelecida.

Com a Clarke

Quer saber quanto do consumo da sua empresa cai nas horas mais caras do dia? Confira seus dados na área do cliente e leve a análise para a conversa com o seu gestor de conta antes da próxima recontratação.

O gestor de conta da Clarke estrutura esses dados de modulação e analisa ativamente a sua exposição horária para proteger o caixa da sua empresa nas negociações. Apoiados na robustez do Grupo Energisa, ajudamos a potencializar e estabilizar os resultados do seu negócio no Mercado Livre de Energia.